O livro do orgulho catalão

VictusSe você disser a alguém que já conhece Barcelona que está com viagem marcada para a capital catalã, certamente receberá a seguinte dica: perca-se pelo Bairro Gótico. Estranho? Não, se você conhece as vielas medievais. Andar por ali sem rumo é um dos melhores programas pra se fazer na cidade. A cada curva, uma surpresa. Pracinhas, cafés, os balcões dos apartamentos decorados com flores e bandeiras da Catalunha.

Foi assim que, em um domingo gelado de março passado, eu e Renata, perdidos no Barri Gòtic, demos de cara com uma atração que nos magnetizou. Um antigo mercado do século XIX estava para ser demolido. Mas ficou com sua estrutura preservada, para proteger o que os operários descobriram durante uma demolição que daria lugar a prédios e uma faculdade: um conjunto de ruínas importantes da antiga muralha que protegia Barcelona até sua queda, em 1714 e outras marcas da evolução da cidade. Trata-se de El Born, um museu arqueológico recém inaugurado, depois de anos de restauração e pesquisa. Tem café, restaurante, livraria, visita guiada e uma linha do tempo muito boa sobre a história de Barcelona e da Catalunha.

E foi esse encontro inesperado que me levou a baixar no Kindle o livro Victus – a queda de Barcelona, de Albert Sánchez Piñol. Na versão impressa, publicada no Brasil pela Alfaguara, são mais de 550 páginas em que Martí Zuviría, o personagem-narrador, nos relata os episódios históricos que levaram à queda de Barcelona e da Catalunha, um território que teve por alguns séculos seu próprio governo e autonomia, até ser definitivamente invadido pelos castelhanos e se tornar parte da Espanha, até hoje.

Piñol constrói o romance histórico utilizando-se de um personagem real, que foi engenheiro de guerra e ajudante geral do general Villarroel, militar castelhano que se juntou aos barceloneses e comandou a heroica resistência em mais de um ano de cerco pelas tropas franco-castelhanas em torno dos muros da cidade.

A narrativa de Zuviría começa muito antes do cerco, mostrando sua formação como engenheiro militar, especializado em criar estratégias e barreiras de defesa com a construção de muros, baluartes, trincheiras e outras artimanhas das guerras daquele período.

O narrador conta essa história com altas doses de sarcasmo e um humor carregado de observações ácidas contra ingleses, portugueses e austríacos, aliados de ocasião dos catalães. E observações mais severas e muito mais engraçadas sobre castelhanos e franceses, cujas tropas cercaram e derrotaram Barcelona. Sem deixar de destilar ironia contra os próprios barceloneses e sua incrível capacidade de divergir entre si.

O livro se alonga em minuciosas descrições das técnicas de construção de fortalezas de defesa e trincheiras de ataque. Mas, acredite, é um texto interessante e fluído, no qual tudo faz sentido para levar ao relato final dos tempos duros em que os barceloneses contrariaram a lógica e, no lugar de uma rendição, votaram em seu parlamento pela resistência, conscientes de que perderiam.

Aí você entende como o orgulho catalão continua vivo, assim como o desejo de independência.

Victus é a narrativa epopeica, mas também picaresca, de uma grande derrota que sedimentou uma cultura de resistência.

A leitura completou várias lacunas que minhas visitas a Barcelona haviam deixado. E me fez torcer ainda um pouco mais pelo Barça. Nada contra a Espanha. Tudo a favor da Catalunha, esta aldeia que resistiu bravamente a um cerco no qual os inimigos tinham tropas dez vezes mais numerosas, contra um exército de defesa composto de alguns poucos militares e milhares de cidadãos comuns, homens, mulheres, idosos, crianças, que não queriam ver sua linda e rica cidade nas mãos do inimigo.

Qualquer semelhança com a aldeia de Asterix faz sentido, muito sentido.

A edição para Kindle é caprichada, com os desenhos a bico de pena dos artefatos militares, muros e fortalezas e também todos os mapas referenciados pelo autor.

P.S.: nesta viagem de março, fomos assistir a Barcelona x Manchester City, pela Champions League. À parte termos sido pé-quentes na campanha vitoriosa do Barça, arrepiou ouvir o grito em uníssono de 90 mil torcedores, aos 17´14” de cada tempo de jogo pedindo independência: idê, idá, independência!

2015-03-18 20.41.31

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3 comentários sobre “O livro do orgulho catalão

  1. Como sempre, uma prosa excelente e um texto gostoso de se ler, Carlos. Agora, recomendo consultar as fontes históricas para ver com outros olhos essa autonomia perdida nas mãos desses malvados castelhanos :D. Porque, infelizmente, Cataluña leva um processo de politização social desde meiados do século XIX, desses que se rigem pela máxima de “uma mentira repetida mil vezes, acaba sendo verdade”.

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    1. Ei, obrigado pela leitura. E pelo comentário. Sou muito simpático à causa catalã. O livro só me abriu mais apetite para entender melhor essa história. Agora, quero entender mais sobre o que fizeram com a Cataluña e também com outras regiões, como o País Basco e a Galizia, durante o franquismo.

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      1. Realmente são assuntos apaixonantes pela polêmica que sempre suscitam e por isso, entendo que gerem muita simpatia, quando percebida só de um lado. Mas enquanto à época da ditadura, posso te dar dois esboços de fácil compreensão: Até não faz muito tempo, São Paulo e todo o Sueste era terra de acolhida de mão de obra nordestina, não é? Tinha a ver com a política ou era uma questão econômica, industrial, laboral? Com Cataluña e Euskadi acontece algo parecido. Desde o século XIX se impulsionou a industria nessas províncias, num intento de se equipara a produtividade nacional à do resto da Europa. Era mais fácil produzir, exportar e importar desde Bilbao o Barcelona para o outro lado dos Pirineos que desde Sevilla, Murcia ou o interior para além dos mares. Assim, duas regiões cresceram quase à níveis europeus e as outras ficaram naquela mansidão e atraso. Com o progresso econômico veio o cultural, o político e o intelectual. E alguém diria que a ambição. Quem ler a obra de Sabino Arana, fundador do Partido Nacionalista Vasco, e estudar um pouco mais em profundidade os fundamentos do nacionalismo catalão, verá que tem pontos em comum: Um fundo burguês. industrial e rico, um interesse em crescer mais ainda as costas do financiamento do resto de Espanha, menosprezando a cultura que trazia essa mão de obra barata vinda dessas províncias cada vez mais empobrecidas, como Castilla, Extremadura ou Andalucia. E essa situação não mudou nem nos tempos de Franco. Bom, um pouco sim: Nos anos 60 começou uma promoção industrial de regiões totalmente agrarias como Castilla e Andalucia, freando aquele éxodo de quase um século para as outras terras industrializadas. Como castellano, acho muito interessante viajar a cidadecinhas do interior de Euskadi, como Bermeo, Irún, Eibar… onde mais da metade da população é filha e neta de meus conterrâneos. Onde a industria existe (e não deixou de existir na pos-guerra, muito pelo contrario, seguiu crescendo) desde faz mais de cem anos, enquanto em Palencia, por exemplo, que é capital de província e uma das mais antigas de Castilla, a primeira fábrica importante chegou nos anos 1940 e a segunda nos 60. Nisso eu vejo bastantes parecidos com o Brasil.
        Por outra parte, sou filho e neto de gallego, e posso falar muito daquela região, é certo, que até bem chegados os anos 60 era das mais atrasadas da Europa. Na aldeia dos meus avós, por exemplo, a água corrente não chegou até os 70. E isso que era a terra de Franco! A primeira autoestrada (uma BR duplicada) que uniu o resto da Espanha com Galicia eu a vi terminar. Aliás, ainda por mais de 10 anos, acompanhei a obra cada vez que a gente viajava de férias para lá. Franco e muitos de seus colaboradores mais próximos eram gallegos, e empenharam bastante esforço nacional para tirar a terra deles daquela situação.
        Enquanto à Cataluña, e já com isso vou acabando, acho que aquela manipulação interessada e discreta dos primeiros nacionalismos, focada em obter uma massa uniforme com que pedir mais direitos, acabou desbocada nos últimos anos. Assim, ao fato de manipular alguns fatos históricos (os vascos também fizeram, mas sem faltar muito à verdade), os nacionalistas catalães tem ido muito além, rescrevendo alguns dos capítulos mais importantes da historia até pontos ridículos. Agora resulta que Cristóbal Colón, por exemplo, é um príncipe catalão, e que a primeira expedição à América não saiu de Huelva e sim de Barcelona, mas que pelo ódio da rainha Isabel de Castilla, toda referência a esse fato foi apagada até que, quinhentos anos depois, alguém descobriu a verdade. E como faz mais de trinta anos que o Governo Catalão tem o controle na educação pública (entre outras muitas concessões que ganharam pela pressão nacionalista desde faz mais de um século) e ninguém fiscaliza o conteúdo do ensino, hoje tem uma geração inteira que acredita nesses fatos. Como no Brasil se segue acreditando que Santos Dumont inventou o avião. Ou como em alguns territórios dos Estados Unidos, governados por evangélicos radicais, o Gênesis é estudado como dogma científico.

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