10 livros para presentear amigos secretos

Então é Natal, já diria Simone.

Embora ateu e radicalmente contra a mistura de vermelho, verde e dourado para fins decorativos, o Lombada Quadrada não perde nenhuma oportunidade de recomendar boas leituras. Se a causa é espalhar livros, a gente topa até vestir o gorro do Papai Noel e ajudar na escolha de presentes. Portanto, aí vai nossa quase tradicional lista de livros para o seu amigo secreto.

Este ano, damos um passo além: selecionamos 10 perfis de amigos e indicamos um item para cada personalidade. Abaixo de cada dica, um link esperto para o site da Amazon, onde você já pode encomendar seu presente e, por tabela, ajudar na manutenção do Lombada.

Boas compras e ho-ho-ho!

O sonhador

Cidades invisíveisO seu amigo é uma pessoa sensível, curte artes visuais, fala sobre a ocupação humanizada do espaço urbano e trocou o carro por uma bicicleta porque assim pode observar melhor o mundo ao seu redor. As cidades invisíveis, de Ítalo Calvino, é o presente perfeito. O livro está dividido em conjunto de pequenos textos sobre cidades imaginárias e outro de diálogos entre o navegador italiano Marco Polo e o imperador mongol Kublai Khan. Calvino discorre principalmente sobre a condição humana na coletividade; por isso, as cidades são a unidade básica de espaço, e as viagens de Marco Polo o veículo perfeito para tratar do outro. É um dos meus livros preferidos de todos os tempos, e um que eu já presenteei algumas vezes.

As cidades invisíveis, de Ítalo Calvino.

A feminista 

2017-08-24 16.55.38Se a sua amiga secreta falar de empoderamento feminino, direito ao aborto e “meu corpo, minhas regras”, O conto da aia é o livro pra ela. O romance distópico criado por Margaret Atwood especula como a ascensão de um governo ultraconservador nos Estados Unidos poderia resultar numa realidade de violência para as mulheres. Atwood não fala do futuro, mas de um possível presente em que dogmas religiosos viram política de estado e encurralam as mulheres em papéis domésticos e subalternos. Offred, a personagem principal, narra em um diário o seu cotidiano como aia, uma classe de mulheres que servem apenas à reprodução, enquanto relembra o passado não tão distante, quando era livre. A narrativa de Atwood é assustadora: trata-se do presente, e não de um futuro distante; os acontecimentos que levam à perda de direitos das mulheres são absolutamente factíveis (vide a história recente do Irã); e a acensão da extrema direita no mundo está aí, pra provar que nem tudo é ficção na ficção. a resenha completa aqui

O conto da aia, de Margaret Atwood.


A que é feminista, mas ainda não sabe

IMG_4821A situação é muito comum: por medo de parecer radical, ou acreditando no estereótipo da feminista raivosa, feia e mal-comida (afff…), a sua amiga medianamente consciente das desigualdades entre gêneros reluta em se assumir como tal. Pra ela, tudo é uma questão individual, de como cada mulher encara suas próprias dificuldades frente ao machismo. Se é esse o caso, ela só precisa de um empurrãozinho rumo à sororidade: sugerimos Sejamos todos feministas, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Curto e barato, o texto foi originalmente composto para uma conferência TED. É bastante didático e serve como uma boa introdução sobre o feminismo como movimento para dirimir desigualdades históricas entre homens e mulheres. Recomendado também para aquele amigo que fica pro aí falando em “consciência humana” e “dia do homem”, mas que não é um caso absolutamente perdido. Resenha completa

Sejamos todos feministasde Chimamanda Ngozi Adichie.

A criança esperta

Maria valériaVocê tem um pirralho pra presentear e já quer dar um livro que é pra colocá-lo de uma vez no mal caminho. Apoiamos incondicionalmente. E sugerimos o incrível No risco do caracol, de Maria Valéria Rezende. Autora dos premiados romances Quarenta Dias Outros cantos apresenta aqui um conjunto de hai-cais inspirados no sertão nordestino, onde já morou. Cada poeminha começa com a última frase do poema anterior, o que faz com que o livro tenha uma “narrativa” circular, que faz sentido iniciada de qualquer ponto. Seja pela sonoridade e singeleza dos versos, seja pelas ilustrações exuberantes de Marlette Menezes, esse é fortíssimo candidato a melhor livro da infância de qualquer criança. Serve tanto para as pequenas, que vão ouvir os versos lidos por alguém, quanto para as maiores, com autonomia pra curtir sozinhas.

No risco do caracol, de Maria Valéria Rezende.

O adolescente rebelde 

MausO garoto se acha muito revolucionário, muito contra tudo isso que está aí, muito melhor e mais antenado que os pais, os tios, os amigos dos pais e qualquer um com mais de 20 anos – como todo mundo quando tinha 15, claro. Mas ele não sabe nada. Você pode provar isso dando um puta presente nesse natal, e aqui temos uma sugestão de história em quadrinhos: Maus, a obra prima de Art Spiegelman. Ambientada na Segunda Guerra mundial, a HQ é um retrato da perseguição nazista aos judeus poloneses, em tons quase autobiográficos. Maus é tão incrível que ganhou o Prêmio Pulitzer de 1992. O seu amigo secreto rebelde vai se surpreender ao descobrir que existem lutas mais antigas do que as dele, mais de uma maneira de fruir literatura e história, e que sim, seu primo-com-mais-de-vinte-anos-portanto-um-velho sabe uma coisa ou duas sobre artes gráficas.

Maus, de Art Spiegelman.

O sommelier 

Vinho e guerraSeu amigo adora vinho. Quando vocês saem pra jantar, é o cara que lê o menu, escolhe a garrafa, cheira a rolha, gira o copo, enfia o nariz e degusta fazendo cara de quem está decifrando a Pedra de Roseta. Você acha esse vício charmoso, mas ao mesmo tempo quer conversar sobre outras coisas além do sabor e do aroma da bebida. Vinho & Guerra é o livro certo. Escrito por um casal de enólogos americanos, o foco aqui é História da Segunda Guerra Mundial, num ponto bem específico: como os franceses se mobilizaram para proteger dos invasores nazistas as garrafas de suas melhores safras. Teve vinho escondido atrás de paredes falsas, teve atentado a trens nazistas e teve também uma corrida ensandecida dos exércitos aliados a um dos quartéis generais de Hitler – todo mundo queria chegar primeiro pra pegar os vinhos que haviam sido pilhados pelo Führer.

Vinho & Guerra: os franceses, os nazistas e a batalha pelo maior tesouro da França, de Don e Petie Kladstrup

O bibliófilo

20160325_110120Não é que a pessoa goste de ler, ela gosta de livros. Entra na livraria para olhar as capas, abre o livro e cheira, confere as costuras, comenta a impressão e a qualidade do papel. Até admite e-books em algumas circunstâncias, mas o barato pra ela, de verdade, é o bom e velho códice. A biblioteca é o lugar mais importante da casa e ai de quem se atrever a tentar pegar algum volume emprestado. Seu amigo é como um Umberto Eco em menores proporções. Pra ele, recomendamos A memória vegetal, um compilado de ensaios do autor italiano sobre a paixão pelo objeto livro, essa invenção perfeita que nós do Lombada também amamos. Resenha completa

A memória vegetal, de Umberto Eco.

A erudita 

Montanha mágicaA montanha mágica é um presentão daqueles – inclusive no tamanho. Com mais de 1.000 páginas, o trabalho mais famoso do escritor alemão Thomas Mann (filho de uma brasileira de Paraty, a propósito) é um romance de formação ambientado nos alpes suíços, para onde acorrem os tuberculosos ricos em busca de tratamento. Isolado numa clínica encravada na montanha junto com o primo Joachim, o jovem Hans Castorp tem todo o tempo do mundo para pensar sobre a vida, a morte, a arte, a política, a sociedade e tudo o mais. O romance não tem um enredo claro, girando sobretudo em torno dos diálogos entre Hans e os outros pacientes, em especial um erudito italiano. O sanatório é um microcosmos da Europa entre guerras, assim como os diálogos são um extrato do caldeirão de pensamentos que rondavam o continente por aqueles anos. A própria estadia em isolamento é um pretexto para discorrer sobre a passagem do tempo. É um livro apaixonante, especialmente para quem se dedica à história do pensamento humano.

A montanha mágica, de Thomas Mann.

A esportista

helenoA criatura vive com as pernas roxas, acorda de madrugada para guardar o lugar do time no campo da pelada e sabe de cor a classificação dos times na Bundesliga. Se seguir o estereótipo à risca, talvez sua amiga secreta não goste de ler – ou acha que não gosta. Mas tudo é questão de achar o livro certo. Pra ela, a dica do Lombada é Nunca houve um homem como Heleno, do jornalista Macos Eduardo Neves. Trata-se da biografia de Heleno de Freitas, estrela do Botafogo antes da profissionalização do futebol – um tempo distante, em que os jogadores eram sócios (ricos) dos clubes, não ganhavam salário e não tinham uma gota de sangue negro.  Heleno foi provavelmente o primeiro badboy do futebol brasileiro, brigão, mulherengo e gastador. Morreu aos 39 anos de sífilis, não sem antes jogar por poucos meses no Boca Juniors e despertar na Argentina o boato de que tinha um caso com Eva Perón. O livro é curto e conciso, uma delícia de ler – um tiro certeiro pra quem não tem o hábito da leitura.

Nunca houve um homem como Heleno, de Marcos Eduardo Neves.

O nerd

UrusulaEsse é o amigo mais difícil de presentear, porque nerd que é nerd já tem muita coisa em casa, o que dificulta consideravelmente a vida de quem o tira no sorteio. Meio difícil dar um chutão, mas vamos tentar… A mão esquerda da escuridão, de Ursula K. Le Guin. É ficção científica escrita por uma mulher cujo tema central é gênero (ou falta de). Portanto, embora Le Guin esteja longe de ser desconhecida, não está entre os autores mais evidentes. Em um futuro indefinido, uma missão terráquea explora o planeta mais distante até então conhecido para tentar convencer os seus habitantes a fazer parte da grande liga comercial que reúne todos os outros planetas. Embora humanos, os habitantes de Inverno não têm um gênero definido – são todos machos e fêmeas ao mesmo tempo, o que tem implicações definitivas sobre a forma como sua sociedade é constituída.  Resenha completa

A mão esquerda da escuridão, de Ursula K. Le Guin

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