O mestre, Margarida e o leitor encantado

A série “por quê eu não li esse livro antes” ganhou um novo capítulo em plena pandemia. Depois da descoberta tardia de Pedro Páramo e do encanto com Léxico familiar, cujos relatos estão nos links, agora foi a vez de me perguntar por onde andava O mestre e  Margarida, romance de Mikahil Bulgákov, autor e obra que, confesso, me eram absolutamente alheios até a tarde em que Renata e eu fomos dar uma bisbilhotada na pequena e charmosa nova livraria do bairro, a Combo Café e Cultura, que tinha sido recém inaugurada. A visita foi dias antes do começo do confinamento e a dica dos livreiros foi certeira. Estava, e estou, em uma fase de grandes leituras de russos. Depois de Dostô e Tolstói e, por isso, pedi um russo como dica. O moço foi direto ao livro, botou o volume na minha mão e simplesmente disse: leia.O mestre e a margarida capa

E que leitura, senhoras e senhores!

Comecei a aventura sem saber nada previamente a respeito de autor e obra. Queria ser surpreendido, já que a dica do livreiro era tão enfática eu tinha a sensação de que algo bom viria pela frente. Foi só depois de umas 100 páginas lidas que dei uma googada sobre Bulgákov para descobrir a história do romance, escrito entre os anos 1920 e 1940 e só publicado pela primeira vez no fim dos anos 60, fora da então União Soviética. Proscrito pelo regime, o autor ficou proibido até 1973, quando, enfim, os russos puderam ler essa obra-prima, mais de 30 anos depois da morte de Mikhail, um sujeito brilhante que teve uma vida atribulada e uma carreira errática com incursões bem sucedidas no teatro e até alguma simpatia, embora passageira, do ditador Stálin, que não foi suficiente para lhe garantir imunidade.

Também descobri que O mestre e Margarida influenciou artistas em todo o mundo e é a inspiração para a canção Sympathy for te devil, dos Stones, que você pode ouvir e ver neste clip incrível.

A obra bebe na fonte da tradição de histórias de pactos com o demônio, especialmente em Goethe e em algumas óperas que influenciaram a narrativa de Bulgákov. Como é de praxe entre os bons autores russos, O mestre e Margarida é um primor de escrita e estilo, com a ótima tradução de Irineu Franco Perpétuo para a Editora 34, que tem em seu catálogo muitos dos clássicos da literatura daquele país.

O narrador de O mestre vai desenrolando nas 400 páginas do romance uma prosa carregada de ironia, sarcasmo, um humor fino e ácido que destila veneno contra a burocracia do regime. Tudo isso com uma dose elevada de nonsense.

Tudo começa com um encontro entre um poeta medíocre e o editor de uma importante revista cultural à beira do lago do Patriarca, em Moscou. A chegada de estranhos sujeitos  é o estopim para o início de acontecimentos alucinantes, que vão se dar em poucos dias, em cenas paralelas, nos mais variados cantos da capital russa, passando por uma narrativa paralela sobre Pôncio Pilatos e o julgamento de um certo Joshua Há-Notzri, na Jerusalém do ano 33 DC. É assim que aparece, pela primeira vez, o mestre, um escritor maldito e proscrito que dedica sua vida a escrever a história de Pilatos. Mas a gente vai demorar pra saber os meandros que essa obra percorre, porque durante toda a primeira parte não há qualquer menção ao mestre. E nem à Margarida.

A sequência alucinante de acontecimentos envolve a intelligentsia moscovita e seu entorno de burocracia e puxa-saquismos. Atores, produtores, bilheteiros e administradores de teatros, supervisores que mais parecem estar a serviço da vigilância do Estado do que da arte. Eles passam a ser visitados por um estranho grupo. Um homem de pince nez, uma ruiva que aparece, no mais das vezes, completamente nua, um gato enorme que anda sobre duas patas, fuma, come as melhores comidas e é chegado em uma boa vodka ou em um vinho do Porto (!!!) e o líder da trupe, mal vestido, misterioso. Por onde eles passam, a começar pelo encontro na beira do lago, mortes misteriosas e desaparecimentos tumultuam a vida dos culturetes. O diabo e sua trupe chegaram a Moscou, com uma missão a cumprir.

É só na segunda parte que a história do mestre, o escritor, entra em cena, com sua musa, Margarida, uma mulher casada com um homem influente no regime, disposta a abandonar o conforto para seguir adorando seu adorado. A sequência de fatos surreais é ainda mais alucinante. Do romance de Pilatos que o mestre resolve queimar, às internações em um hospício dos vários personagens que têm contato com o demônio e sua trupe – imagine dizer à polícia soviética que viu um gato tomando vinho do Porto e fumando charutos -, até que o pacto é feito pela musa para resgatar o romance do mestre e viver eternamente a seu lado. A partir daqui não dá mais para não fazer spoiler. Só deixo registrado que existe uma sequência em que Margarida faz uma viagem alada, para ir ao encontro do diabo e sua trupe, que tem uma beleza e um lirismo impressionantes, levando a narrativa para seu desfecho em um ritmo maluco, deixando o leitor cativo de cada nova página, até que o livro todo se consuma.

São muitas as camadas de análise que se pode fazer sobre essa obra rara. Da crítica ao regime que o perseguiu, o desprezo pela intelectualidade moscovita, retratada como fútil, glutona e medíocre, o humor bem destilado em frases lapidares (nem sei quantas marcas fiz no livro), o modo como ele brinca com os nomes dos personagens, as centenas de referências e citações de literatura, música e artes plásticas e, como maior presente, a escrita fluida e envolvente. Fiz um pacto com Bulgákov.

P.S.: depois da correta observação de Adroaldo Almeida, leitor atento e escritor de mão cheia, corrigi o nome do livro. Mania de paulista, coloquei artigo antes de Margarida. Imperdoável.

5 comentários sobre “O mestre, Margarida e o leitor encantado

  1. Sem querer ser metido, desculpas, mas o título deste livro é O Mestre e Margarida, e não O Mestre e A Margarida. Como o de Jorge Amado é Capitães DA Areia e não Capitães DE Areia, e o de Górki é Mãe e não A Mãe. Digo isso apenas porque sempre percebo essas confusões nestes títulos. Mas a sua resenha está ótima. Parabéns.

    Curtido por 1 pessoa

      1. Eu que agradeço por ter este site à nossa disposição. Parabéns pelo trabalho.

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