Contos de terror portenho

Livros de terror e fantasia, além de distopias clássicas ou contemporâneas, povoam as páginas eletrônicas do Lombada Quadrada desde que começamos a aventura deste blog. E ficaram mais presentes em nossas leituras nos últimos tempos, talvez para que a gente continue a acreditar que a ficção pode ser mais inventiva do que a absurda realidade que temos vivido no país e no mundo em que histórias malucas, travestidas de fake news passaram a ditar rumos das eleições, da política e da economia. Isso sem falar da pandemia que agora nos assombra e que é muito mais louca e paralisante do que possam ter imaginado os melhores roteiristas de Hollywood.

Las cosas que perdimos en el fuego capaO livro em questão nesta resenha é Las cosas que perdimos en el fuego, da escritora argentina Mariana Enriquez. Jornalista de ofício, editora de um suplemento no ótimo jornal portenho Página/12, Enriquez tem em sua obra novelas, relatos de viagem, perfis de personagens oriundos de trabalhos jornalísticos. Entre esses perfis publicados, está o de Silvina Ocampo, escritora que ao lado de Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares organizou a incrível Antologia da literatura fantástica, recém resenhada aqui. E certamente o trio argentino e sua famosa coletânea de textos de terror e mistério estão entre as influências na obra de Enriquez, cujos livros de contos de horror ganharam publicações em mais de vinte países.

Nossa edição de Las cosas foi comprada por impulso em uma visita à Livraria da Travessa de Pinheiros, nos tempos em que podíamos fazer essas incursões perigosas para o bolso e alentadoras para a alma de leitores compulsivos. Não conhecia a autora (mais um sintoma do vírus do desconhecimento que reina em nosso país acerca da produção literária de nossos vizinhos, como já escrevi aqui) mas uma rápida folheada foi suficiente para investir um bocado de reais no volume publicado pela Editorial Anagrama, de Barcelona, de cuja coleção Narrativas hispánicas temos vários autores espanhóis e latino-americanos. Aliás, como ficam caros os livros importados, que pouco chegam às nossas livrarias, mesmo quando não existem edições nacionais.

A primeira coisa que descobri sobre o volume de contos de Mariana Enriquez é que se trata de um sucesso editorial. Lançado em 2016, ganhou sua 4ª edição em 2019, em um mercado que costuma ter tiragens mais generosas do que as nossas esquálidas publicações.

Então, fui à leitura. Uma prosa límpida e bem trabalhada com claros traços de um rigor estilístico e precisão de informações oriundos do trabalho jornalístico da autora. É uma escrita envolvente e bem ritmada. Nenhum dos contos pareceu excessivo e Enriquez consegue dar verossimilhança aos maiores absurdos, uma das qualidades intrínsecas às narrativas fantásticas. Se o leitor não embarca nas histórias, já era.

E eu consegui embarcar, e muito nas tramas curtas e saborosas de Las cosas. escrevi aqui que é difícil achar um foco narrativo para resenhar livros de contos, mesmo quando há uma unidade narrativa. Em alguns casos, funciona bem escolher e citar os textos preferidos, extraindo daí a atenção que se pode dar ao conjunto. Em outros, uma linha temática, como neste caso, faz a amarração da obra e traz conforto ao resenhista.

Em Mariana Enriquez, destacam-se a temática do horror e do suspense, presente em todos os 12 contos do livro, sem meios tons ou em que se fuja da proposta do conjunto. A cidade, ou mais amplamente, a geografia, têm papel fundamental, como demarcação de território, memória e a escolha de Buenos Aires e arredores como um personagem transversal à maioria das narrativas. Em uma profusão de bairros abandonados, casas marcantes e arrabaldes áridos, as histórias são marcadas também pela presença da política e da ditadura, ela mesma uma geradora de horrores, e das relações sociais e econômicas em uma sociedade de contrastes, riqueza e miséria que convivem em ambientes potencialmente necrófilos.

Seria injusto destacar contos em uma coleção tão alucinante e arrepiadora de histórias que envolvem mortes, desaparecimentos, suicídios misteriosos, objetos que ganham vida e vontade, como em uma casa que eternamente se recusa a receber novas cores em suas paredes, por mais que sejam pintadas. Mas preciso destacar o conto final, que dá nome ao livro, em que mulheres começam a aparecer queimadas, em cenas tenebrosas de autoimolação nos mais variados locais da cidade. Las cosas que perdimos en el fuego é um conto breve e impactante, que traz à tona a memoria das “bruxas” queimadas na inquisição e uma espécie de manifesto feminista um tanto incendiário, que incomoda autoridades, prontas a negar os acontecimentos, esconder corpos e histórias e maquiar os números de imolações que não param de acontecer por toda a parte. Um belo desfecho para um livro impressionante.

Comecei este texto falando sobre o quanto nosso blog se dedicou a livros de horror e fantasia nos últimos tempos e não posso deixar de citar alguns resenhados recentemente, especialmente da turma de Pernambuco, onde a produção de literatura fantástica é fervilhante e de qualidade, como nas obras recentes de André Balaio, João Paulo Parísio e Frederico Toscano, sem contar clássicos como Água Funda, de Ruth Guimarães, e os contos de J.J.Veiga e Murilo Rubião.

 

P.S.: uma atualização. Agradeço ao comentário de Ricardo Santos, no Facebook do Lombada, que informou sobre a edição brasileira do livro pela Editora Intrínseca.

4 comentários sobre “Contos de terror portenho

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